domingo, 4 de julho de 2010

De uns poemas esquecidos e do esquecimento dos poemas

Arrumando as malas, o quarto (a vida?) pra ir pra São João, encontrei uns poemas no bloco que uso pra fazer as lições do Russo. Tinha me esquecido deles. É impressionante como perco da memória tudo que escrevo em formato de poesia. Com prosa é raro. Geralmente pela têmpera do tempo mesmo, ou me somem um ou dois trechos apenas. As frases que acho mais poéticas, oriundas ou não de um linhame contextual, até essas persistem. Agora, atino um verso e, nem gostando muito dele depois, quase que imediatamente esqueço. Foi assim que passei a decorar meus poemas preferidos, coisa que, aliás, não faço há um tempo. Porque, há um tempo, não escrevo poemas. Virei essa espécie de cavalo de corrida obstinado com a vitória do texto corrido. Mas bem: achei esses, escritos se não me engano enquanto andava pelos corredores da faculdade, na cabeça, e depois transcritos antes do início de alguma aula, acho que de Fonética e Fonologia do Português. Somente do terceiro poema posso dizer com certeza: veio-me enquanto bebia um copo de leite, na casa dos meus avós maternos, após uma conversa pelo MSN com M.B.M. Mas vêem (sic)? No geral, nem quando nem como livram-me. Para a prosa, me arquiteto antes de escrever. Os poemas ou me assaltam ou me seduzem, Iaras do lodo. Fiquei pensando que talvez os esqueça porque se encontram mais bem acabados que a prosa toda. Como se pudesse logo abandoná-los, ou soubesse a hora de deixá-los. Enfim, aqui vão (provável ordem cronológica). Espero não acordar um dia e constatar que só estou me enganando com minha teoria.


Seria fácil dizer
que ao acordar
não prefiro
o calor dos teus
olhos a uma
datável
nesga de sol
varando-me
as persianas da alma.


Tirei o segundo. Briguei com ele.


É possível que esqueças
por um momento
teu pesado fardo.
Mas reconstrói-o à noite;
encapa-o desta inatingível matéria
e entrega-o ao forno dos sonhos.
Que o dia, meu caro,
minha cara,
um dia acorde-nos com seu sol de barros prontos,
de esperanças moldadas,
porosas respiráveis,
não ocas.
O amor com a superfície da talha
da casa de nossos avós.


Não uso a Nova Ortografia ainda. Tenho uma frase de efeito sobre: Com ou sem trema, a lingüiça vai continuar entrando nos países africanos que têm o Português como língua oficial.

Um comentário:

  1. Simplesmente maravilhoso!
    Ouvi sua voz ao ler o post!
    Incrível... Me dá um autógrafo?! Ou
    Dá-me um autografo???
    Com carinho, da Metrópole,
    Andressa*

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